31 Julho 2009

Artigos

"O Fruto do Espírito"
R. C. Sproul
"Se somos cheios do Espírito, vamos exibir o fruto do Espírito"

Romanos 12:1-21; 1 Coríntios 12:1-14:40; Gálatas 5:19-26; Efésios 4:1-6:20
O fruto do Espírito Santo é um dos aspectos mais negligenciados do ensino bíblico sobre santificação. Há várias razões para isso:
1. A preocupação com as coisas exteriores. Embora os estudantes muitas vezes murmurem e reclamem quando têm de fazer uma prova na escola, há um sentido em que realmente queremos fazer as provas. Sempre encontramos nas revistas modelos de testes que medem habilidades, realizações ou conhecimentos. As pessoas gostam de saber em que nível estão. Será que consegui alcançar a excelência numa certa área, ou estou afundando na mediocridade?Os cristãos não são diferentes. Tendemos a medir nosso progresso na santificação examinando nosso desempenho de acordo com padrões externos. Proferimos maldições e palavrões? Bebemos muito? Esses padrões são freqüentemente usados para medir a espiritualidade. O verdadeiro teste — a evidência do fruto do Espírito Santo — geralmente é ignorado ou minimizado. Foi nessa armadilha que os fariseus caíram.Nós nos afastamos do verdadeiro teste porque o fruto do Espírito é difícil demais. Exige muito mais do caráter pessoal do que os padrões exteriores superficiais. É muito mais fácil evitar falar um palavrão do que adquirir o hábito de ter uma paciência piedosa.
2. A preocupação com os dons. O mesmo Espírito Santo que nos guia na santidade e produz fruto em nós também distribui os dons espirituais aos crentes. Parecemos muito mais interessados nos dons do Espírito do que no fruto, a despeito do ensino claro da Bíblia de que alguém pode possuir dons e ser imaturo no progresso espiritual. A carta de Paulo aos Coríntios deixa isso muito claro.
3. O problema dos descrentes justos. É frustrante medirmos nosso progresso na santificação pelo fruto do Espírito Santo porque as virtudes relacionadas às vezes são exibidas num nível maior por descrentes. Todos nós conhecemos pessoas não-cristãs que demonstram mais bondade ou mansidão do que muitos cristãos. Se as pessoas podem ter o “fruto do Espírito” independentemente do Espírito, como podemos determinar nosso crescimento espiritual desta maneira?Há uma diferença qualitativa entre as virtudes de amor, alegria, paz, longanimidade, etc., engendradas em nós pelo Espírito Santo e aquelas exibidas pelos descrentes. Os não-crentes operam por motivos que, em última análise, são egoístas. Quando, porém, um crente exibe o fruto do Espírito, ele está mostrando características que, em última análise, são voltadas para Deus e para o próximo. Ser cheio do Espírito Santo significa ter uma vida controlada pelo Espírito; os não-crentes só podem exibir essas virtudes espirituais no nível da capacidade humana.Paulo faz uma lista das virtudes do fruto do Espírito em sua carta aos Gálatas: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5:22,23). Essas virtudes caracterizam a vida cristã. Se somos cheios do Espírito, vamos exibir o fruto do Espírito. Isso, porém, obviamente envolve tempo. Não são ajuste superficiais do caráter que ocorrem da noite para o dia. Tais mudanças envolvem uma reformulação das disposições mais íntimas do coração, o que representa um processo de longa vida de santificação pelo Espírito.
Sumário:1. Tendemos a negligenciar o estudo do fruto do Espírito Santo porque: (1) nos preocupamos mais com aspectos exteriores; (2) nos preocupamos mais com os dons espirituais e (3) reconhecemos que muitas pessoas incrédulas exibem as virtudes espirituais melhor do que os cristãos. 2. É mais fácil medir a espiritualidade por fatores exteriores do que pelo fruto do Espírito. 3. Podemos ter os dons espirituais e mesmo assim ser imaturos.4. Existe uma diferença qualitativa entre a presença das virtudes espirituais nos incrédulos e nos crentes. Nos incrédulos, a virtude demonstra um mero esforço humano. Nos cristãos, as virtudes espirituais representam o Deus Espírito Santo produzindo um fruto espiritual numa medida além da capacidade humana.
Para discussão e avaliação:1. Quais são alguns motivos pelos quais o fruto do Espírito Santo é um dos aspectos do ensino bíblico que é mais negligenciado? 2. Qual é a diferença qualitativa entre o fruto do Espírito manifestado pelo cristão e as outras características semelhantes encontradas na vida de não-cristãos? 3. Por que o cultivo do fruto do Espírito leva muito tempo na vida do cristão?4. Que podemos fazer para cultivar o fruto do Espírito em nossa vida?

Fonte: Verdades essenciais da fé cristã: doutrinas básicas em linguagem simples e prática. Volume 3 (São Paulo: Cultura Cristã, 1999), p. 30 e 31.

Mundo a Fora

"China tem 13 milhões de abortos por ano, diz estudo"
Michael Bristow Fonte: BBC News
Publicação: 30/07/2009


Cerca de 13 milhões de abortos são realizados por ano na China, de acordo com relatos da imprensa do país. Uma pesquisa mostrou que o país tem cerca de 20 milhões de nascimentos por ano.
Os números revelam que a maioria das mulheres que fazem abortos são solteiras, com cerca de 20 anos.
Pesquisadores acreditam que os números reais podem ser até maior, porque há muitas clínicas não-registradas de aborto.
Especialistas chineses dizem que os jovens precisam receber mais orientação sexual. Os dados foram publicados na capa do jornal China Daily.
A reportagem afirma que o alto número de abortos é uma fonte de preocupação no país. A China tem leis rigorosas de planejamento familiar, que limitam muitas mulheres a terem apenas um filho.
Abortos são permitidos em alguns casos em que as mulheres já tiveram mais filhos do que o permitido pela lei. Há casos também de mulheres que são forçadas a abortar para se manter nos níveis de natalidade permitidos pelo governo, para que as autoridades consigam atingir as suas metas de controle populacional.

28 Julho 2009

Artigos

"Como os homens vêm a Cristo".
Por C. H. Spurgeon


“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” João 6.44
Como Deus traz homens a Cristo? Os pregadores arminianos geralmente dizem que Deus traz homens a Cristo por meio da pregação do evangelho. É verdade; a pregação do evangelho é o instrumento para trazer homens a Cristo, mas precisa haver algo mais que isso. A quem Cristo dirigiu essas palavras? Ora, às pessoas de Cafarnaum, onde Ele pregava com freqüência, onde Ele proferiu, com lamentação e tristeza, as maldições da lei, bem como os convites do evangelho. Naquela cidade, o Senhor Jesus havia realizado muitos sinais poderosos e diversos milagres. Na verdade, Ele ministrou aos moradores de Cafarnaum tantos ensinos e operou tantas confirmações miraculosas, a ponto de declarar que, se Tiro e Sidom houvessem sido abençoadas com tais privilégios, há muito teriam se arrependido em pano de saco e cinzas.
Ora, se a pregação do próprio Cristo não foi proveitosa para tornar esses homens capazes de vir a Ele mesmo, não é possível que a pregação do evangelho fosse a única coisa idealizada por Deus para trazer os homens a Jesus. Não, queridos irmãos, vocês têm de observar novamente: o Senhor Jesus não disse que o homem não virá a Ele, se o ministro do evangelho não o trouxer; e sim que se o Pai não o trouxer. Ora, existe o ser trazido pelo evangelho e pelo pregador, sem ser trazido por Deus. É claro que Jesus estava falando de ser trazido por Deus, o Altíssimo: a primeira Pessoa da gloriosa Trindade, enviando a terceira Pessoa, o Espírito Santo, para induzir homens a virem a Ele, Jesus.
Alguém pode se levantar e dizer com escárnio: “Então, você acha que Cristo traz os homens a Ele mes- mo, vendo que os homens não têm disposição para fazer isso?” Lembro- me de haver conhecido um homem que disse: “Senhor, você pregou que Cristo apanha os homens pelos seus cabelos e os traz a Si mesmo”. Perguntei-lhe se podia lembrar o dia em que preguei um sermão contendo essa extraordinária doutrina. Se ele pudesse lembrar, eu ficaria grato. Mas aquele homem não pôde lembrar tal dia. Eu lhe disse que, embora Cristo não traga ninguém a Ele mesmo, puxando-o pelos cabelos, creio que Ele traz pessoas por meio do coração, fazendo-o de maneira quase tão poderosa quanto aquela ilustração poderia sugerir.
Observem que no trazer do Pai não há qualquer compulsão. Cristo nunca obriga qualquer pessoa a vir a Ele contra a vontade dela mesma. Se alguém não quer ser salvo, Cristo não o salva contra a vontade dele mesmo. Então, de que maneira o Espírito Santo traz o homem a Cristo? Ora, Ele o faz tornando o homem disposto. É verdade que o Espírito Santo não usa a “persuasão moral”. Ele conhece um método mais fácil de alcançar o coração do homem. O Espírito Santo vai às fontes secretas do coração e, sabendo exatamente como, por meio de uma realização misteriosa, muda a direção da vontade humana, de modo que, assim como Ralph Erskine o apresentou de modo paradoxo, o homem é salvo “com pleno consentimento, contra a sua própria vontade”; ou seja, ele é salvo contra a sua velha vontade. Mas ele é salvo com pleno consentimento, pois Deus o tornou disposto no dia do seu poder.
Não imaginem que qualquer pessoa irá ao céu esperneando e gritando, em todo o caminho, contra a mão que o traz a Cristo. Não imaginem que alguma pessoa será mergulhada no banho do sangue de Cristo, enquanto se esforça para fugir de seu Salvador. Oh! Não. É verdade que, antes de tudo, o homem não tem disposição de ser salvo. Quando o Espírito Santo coloca a sua influência sobre o coração, o teste se cumpre: “Leva-me após ti” (Ct 1.4). Seguimos, enquanto Ele nos atrai, felizes por obedecer à voz que antes desprezamos.
Mas o âmago deste assunto se encontra na transformação da vontade. Como isso acontece, ninguém sabe. Esse é um daqueles mistérios que é percebido de maneira mais evidente através dos fatos; contudo, ninguém pode descrevê-lo, nenhum coração pode imaginá-lo. A maneira aparente em que o Espírito Santo age, nós podemos dizer-lhe. A primeira coisa que Ele faz, quando vem ao coração de uma pessoa, é esta: Ele a encontra nutrindo uma excelente opinião a respeito de si mesma. Ora, o homem diz: “Eu não quero vir a Cristo. Tenho uma justiça pessoal tão boa, que qualquer pessoa pode desejá-la. Sinto que eu posso chegar ao céu confiando em meus próprios direitos”. O Espírito Santo desnuda tal coração, fazendo-o ver o câncer repugnante que está devorando sua vida; descobre à pessoa todas as trevas e corrupção daquele recinto infernal, o coração humano; assim, a pessoa fica horrorizada. “Nunca pensei que eu fosse assim. Aqueles pecados que julgava insignificantes se acumularam e atingiram uma proporção imensa.
Aquilo que eu julgava ser um montículo cresceu e se tornou uma montanha elevada; era apenas um ar busto, agora é um cedro do Líbano. Oh!”, diz a pessoa a si mesma, “tentarei reformar a minha vida; farei boas obras suficientes para limpar completamente estas obras mortas”. Então, o Espírito Santo lhe mostra que ela não pode fazer isso e remove todo o poder e a capacidade ilusória da pessoa, de modo que ela se prostra, em seus joelhos, clamando em agonia: “Oh! Pensei que poderia salvar a mim mesmo por meio de minhas boas obras, mas percebo que:
Se minhas lágrimas jorrassem eternamente,
Se meu zelo não conhecesse nenhum limite,
Tudo que fizesse pelo pecado não o expiaria.
Tu, Senhor, e somente Tu, podes salvar-me”.

Depois que o coração afunda, o homem está pronto para entrar em desespero. E diz: “Nunca posso ser salvo. Nada me pode salvar”. Neste momento, o Espírito Santo se aproxima e mostra ao pecador a cruz de Cristo, outorgando-lhe olhos ungidos com colírio celestial e declarando: “Olhe para aquela cruz, o Homem que ali morreu salva pecadores. Você sente que é um pecador; Ele morreu para salvá-lo”. Assim, o Espírito Santo capacita o coração a crer e a vir a Cristo. E, quando o homem vem a Cristo, pelo amável trazer do Espírito, encontra a “paz de Deus, que excede todo o entendimento” e guarda sua mente e seu coração em Cristo Jesus (Fp 4.7).
Agora você percebe claramente que tudo isso pode ser feito sem qualquer compulsão. O homem é trazido com tanta voluntariedade como se não tivesse sido atraído. Ele vem a Cristo com todo o seu consentimento, como se nenhuma influência secreta houvesse agido em seu coração. Mas essa influência tem de ser exercida, pois, do contrário, nunca haveria (nem haverá) qualquer pessoa que poderia ou desejaria vir ao Senhor Jesus Cristo.
(Extraído da Revista "Fé para Hoje", Número 16.)

"Equipe de TV cristã é atacada por radicais hindus"


ÍNDIA (22º) - Uma equipe de TV cristã foi atacada por um grupo de radicais hindus em um vilarejo no estado de Tamil Nadu, na quarta-feira, 22 de julho. De acordo com uma notícia da All India Christian Council (AICC), a equipe formada por 10 pessoas foi agredida e depois forçada a ir a um templo para mais humilhação. No templo, eles foram forçados a deitar sob o sol quente e adorar os deuses hindus. Ao mesmo tempo, os radicais chutavam seus corpos, acusando-os de forçar conversões na área. O material cristão que estava com a equipe foi confiscado e queimado, e o carro foi danificado. Um cristão que passava pelo local viu a agressão e informou a polícia. Os policiais conseguiram resgatar os cristãos, que receberam os primeiros socorros. Um dos integrantes da equipe teve que ir ao hospital para tratar de seus ferimentos.
Tradução: Portas Abertas

27 Julho 2009

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"Desprendidos do Mundo"
Watchman Nee


Vimos como a Igreja é um espinho na carne de Satanás, causando-lhe grande desconforto e reduzindo sua liberdade de movimentos. Estando no mundo, a Igreja não apenas recusa-se a ajudar no seu desenvolvimento, mas persiste em pronunciar o julgamento sobre ele. E se é verdade que a Igreja é uma constante fonte de irritação para o mundo, então, do mesmo modo, o mundo é uma fonte constante de aflições para ela. E porque o mundo está sempre em desenvolvimento, sua capacidade de afligir o povo de Deus está sempre em expansão; de fato, a Igreja tem de confrontar-se com uma força no mundo hoje, diferente da encontrada em seus primórdios, quando os filhos de Deus enfrentaram aberta perseguição na forma de ataque físico exterior a eles mesmos (At 12; 2Co 11). Eles estavam sempre confrontando-se com coisas materiais e tangíveis. Hoje, o problema principal que encontram no mundo é mais sutil; é uma força intangível por trás das coisas materiais, que não é santa, mas espiritualmente maligna. O impacto dessa força espiritual hoje é ainda maior do que era naquela época. E não apenas é maior; há um elemento presente agora que não havia antes.Em Apocalipse 9, lemos sobre um acontecimento que, para o autor daquele livro, está no futuro: “E o quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caiu na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha (...) E da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra. E foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm nas suas testas o sinal de Deus” (vv. 1-4). Esta é uma linguagem figurativa, mas a estrela caída do céu, obviamente, refere-se a Satanás, e sabemos que o abismo sem fim é seu domínio – seu armazém, podemos dizer. Apesar de esta figura aparecer no final dos tempos, está marcada por uma especial liberação de suas forças, e os homens encontrar-se-ão lutando contra um poder espiritual contra o qual jamais tiveram de lutar antes.Certamente, isso está de acordo com a realidade de nossos dias. Apesar de ser verdade que o pecado e a violência serão cada vez maiores ao final desta era, está evidente, na Palavra de Deus, que não será especificamente contra tais coisas que a Igreja terá de lutar, mas muito mais com o apelo espiritual nas coisas cotidianas. “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos” (Lc 17.26-29). A questão que Jesus levantou aqui não é que todas estas coisas – comida, casamento, negócios, agricultura e construção – foram características marcantes dos dias de Ló e de Noé, mas que, nos dias finais, tais coisas serão uma característica especial. “Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar” (v. 30) – eis o ponto importante. Tais coisas não são, em si mesmas, pecaminosas; são, simplesmente, coisas do mundo. Você já tinha dado tanta atenção à boa vida quanto nos dias de hoje? Comida e vestuário estão se tornando as principais preocupações dos filhos de Deus hoje. “O que comeremos? O que beberemos? O que vestiremos?” Para muitos, esses assuntos são os que dominam suas conversas. Há um poder que faz com que você considere tais assuntos importantes; toda a sua existência clama para que você preste atenção a eles.As Escrituras nos alertam para o fato de que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça” (Rm 14.17), nos exortam a buscar primeiro o reino de Deus e a Sua justiça e nos asseguram que todas essas coisas nos serão acrescentadas (Mt 6.33). Exortam-nos, ainda, a não andarmos ansiosos com questões de comida e vestuário, pois, se Deus cuida das flores do campo e dos pássaros do ar, muito mais não cuidará de nós, que somos Sua propriedade? A julgar por nossa ansiedade, poderia até parecer que eles recebem o cuidado de Deus e nós não!Aqui está uma questão que merece ênfase especial. Esse estado de coisas é anormal. Essa excessiva atenção ao comer e ao beber, quer seja nos extremos da subsistência ou do luxo, que caracteriza tantos cristãos em nossos dias, está muito longe de ser normal; é sobrenatural. Não estamos tratando apenas de comer e beber aqui; estamos lidando com demônios. Satanás concebeu e agora controla a ordem do mundo, e está preparado para usar o poder demoníaco sobre as coisas do mundo a fim de nos atrair para o mundo. Os fatos atuais não podem ser explicados fora desse contexto. Oh, se os filhos de Deus pudessem acordar para tal fato! No passado, os santos de Deus encontraram todo tipo de dificuldades; no entanto, mesmo em meio às pressões, podiam olhar para o alto e confiar em Deus. Todavia, nas pressões de hoje, estão tão confusos e desnorteados que parecem incapazes de confiar Nele. Oh, que percebamos a origem satânica de toda essa pressão e confusão!O mesmo é verdade quando o assunto é casamento. Nunca tivemos tantos problemas nesta área quanto agora. Há uma grande confusão, pois os jovens romperam com velhas tradições, mas carecem da direção de novos conceitos para substituir os antigos. Este fato não pode ser considerado normal, mas é sobrenatural. Casar-se e dar-se em casamento é algo totalmente sadio e normal em qualquer época, mas, hoje, há um elemento neste assunto que não é natural.É assim, também, quanto a plantar e construir, e quanto a comprar e vender. Todas estas coisas podem ser perfeitamente legítimas e benéficas, mas o poder que hoje está por trás delas pressiona os homens até que estes fiquem desnorteados e percam o equilíbrio. A força maligna que move o sistema do mundo tem precipitado uma condição hoje em que podemos ver dois extremos: o primeiro é a total incapacidade de vivermos somente com o que ganhamos, e o outro, a incomum oportunidade de juntar riquezas. Por um lado, muitos cristãos encontram-se em dificuldades financeiras sem precedentes; por outro, muitos encontram oportunidades de enriquecer, também sem precedentes. Ambas as condições são anormais.Entre em qualquer casa, nos dias de hoje, e escute qual é a conversa. Você ouvirá comentários assim: “Na semana passada eu comprei ‘isso e aquilo’, naquele lugar ‘assim e assim’, e economizei muito”. “Felizmente eu adquiri ‘tal coisa’ no ano passado, senão, teria perdido muito dinheiro”. “Se você quer vender, faça-o agora, enquanto o mercado está bom”. Já percebeu como as pessoas estão correndo de um lado para o outro, fazendo negócios freneticamente? Médicos estão estocando farinha; fabricantes de roupas estão vendendo papel; homens e mulheres, que nunca lidaram com tais coisas, estão sendo arrastados pela corrente da especulação(1). Foram sugados pelo turbilhão do mercado, fazendo-os girar loucamente. Você não percebe como esta situação não é normal? Você não vê que há um poder aqui que está escravizando os homens? As pessoas não estão agindo de forma sã; estão fora de si. Esta orgia de vender e comprar não é apenas uma questão de ganhar ou perder um pouco de dinheiro, mas trata-se de estarmos em contato com o sistema satânico. Estamos vivendo no final dos tempos, uma época em que um poder especial foi liberado e está dirigindo os homens, quer estes queiram, quer não.Então, o problema hoje não está tanto na pecaminosidade, mas no mundanismo. Quem ousaria dizer-lhe que você está agindo errado quando come e bebe? Quem desaprovaria o casar-se ou dar-se em casamento? Quem questionaria seu direito de comprar e vender? Tais coisas não são erradas em si mesmas; errada é a força espiritual que está por trás delas, a qual, por sua mediação, faz uma pressão implacável sobre nós. Oh, que despertemos para o fato de que, apesar de tais coisas serem tão simples e comuns, estão sendo usadas por Satanás para atrair os filhos de Deus para a grande rede de sua ordem mundana.“Olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia” (Lc 21.34). Note o termo “vida” nas palavras de Jesus. No Novo Testamento em grego, três palavras são comumente usadas para vida: zoé, vida espiritual; psiquê, vida psicológica, e bios, vida biológica. Esta última é a palavra aqui usada, aparecendo em sua forma adjetiva, biotikos, “da vida”. O Senhor está nos alertando para que não sejamos pressionados excessivamente pelos cuidados desta vida, que pertencem ao dia presente, com as ansiedades concernentes aos assuntos cotidianos da vida como comer e vestir-se, que pertencem à nossa presente existência na terra. Foi por causa de uma coisa simples que Adão e Eva caíram, e será por causa de assuntos simples assim que alguns cristãos poderão negligenciar o chamamento celestial de Deus. A questão será sempre: onde o coração está? Somos exortados a não deixar nosso coração sobrecarregado ou oprimido com essas coisas, pois nós mesmos estaremos perdendo. Ou seja, não é para carregarmos um fardo referente a esses assuntos, pois é pesado demais para o suportarmos. Devemos ter um verdadeiro sentimento de desapego dos nossos bens, seja em casa ou no campo (17.31).Portanto, percebamos quem somos! Somos a Igreja, a luz do mundo brilhando no meio das trevas. Como tal vivamos aqui.Houve uma época em que a Igreja rejeitava os costumes do mundo. Agora, ela não apenas faz uso deles; abusa deles. É claro que precisamos usar o mundo, pois precisamos dele; porém, que não o queiramos nem o desejemos. Assim, Jesus continua: “Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem” (21.36). Iria Deus exortar-nos a vigiar e orar, se não houvesse uma força espiritual contra a qual devêssemos estar prevenidos? Não ousamos considerar nosso destino como algo certo, mas devemos estar constantemente em alerta para que, de fato, em espírito estejamos desembaraçados dos elementos deste mundo. Há coisas no mundo que são essenciais à nossa existência. Preocupar-se com tais coisas é legítimo, mas sobrecarregar-se por causa delas é ilegítimo e pode impedir-nos de desfrutar do melhor de Deus para nós.O livro de Apocalipse sugere que Satanás estabelecerá seu reino do anticristo no mundo político (cap. 13), no mundo religioso (cap. 17) e no mundo comercial (cap. 18). Neste tripé de política, religião e comércio, seu reino encontrará sua última expressão violenta. Nos últimos dois capítulos, seu reino aparece sob a figura da Babilônia, o instrumento especial de Satanás. A Babilônia parece representar o cristianismo corrompido – Roma, talvez, mas ainda maior e mais insidioso que Roma – e é por causa de seu comércio que ela será julgada. Todo o registro do capítulo 18 gira em torno de mercadores e mercadorias. Todos os que choram a queda da grande cidade, dos reis até o menor dos marinheiros, lamentam a idéia de que todo o seu florescente comércio repentinamente cessou. Obviamente, não é a religião nem a política, mas é o mercado que faz com que o espírito de Babilônia floresça outra vez, e isso é o que se lamenta em sua queda. Não queremos estabelecer enfaticamente que o puro comércio é errado, mas afirmamos, baseados na Palavra de Deus, que seu início está relacionado a Satanás (Ez 28) e seu fim está relacionado à Babilônia (Ap 18). E acrescentamos, baseados em dura experiência, que o comércio é o campo em que, mais do que em qualquer outro, “a corrupção que, pela concupiscência, há no mundo” (2Pe 1.4) implacavelmente persegue até mesmo o cristão com os mais elevados princípios, o qual, longe da graça de Deus, facilmente será seduzido para sua queda.Estamos suscetíveis à Babilônia? Os mercadores choraram, mas o céu clamou “Aleluia!” (19.1). Estes são os únicos “aleluias” registrados no Novo Testamento (vv. 1-6). Faremos eco a eles?Entramos em um campo muito perigoso quando lidamos com o comércio. Se, por força da necessidade, nos envolvermos em algum negócio puro, e se o fizermos em temor e tremor, podemos contar com a ajuda de Deus para escapar da rede do diabo. Mas se formos muito confiantes, então, não há esperança de escapar do egoísmo inescrupuloso que tal negócio produz. Então, o problema que nos confronta neste dias não está em como abster-nos de comprar e vender, de comer e beber, de casar-nos e dar-nos em casamento; o problema agora está em evitar o poder por trás dessas coisas, pois ousamos não permitir que aquele poder tenha vitória sobre nós.Qual, então, é o segredo de manter nossas coisas materiais na vontade de Deus? Certamente, é mantê-las para Ele, ou seja, saber que não estamos acumulando riquezas inúteis ou ajuntando grandes quantias no banco, mas depositando riquezas em Sua conta. Você e eu devemos ser desejosos de desfazer-nos de qualquer coisa a qualquer momento. Não importa se eu tenho de deixar dois milhões ou apenas dois reais. O que importa é se posso deixar qualquer coisa sem qualquer pontada de remorso.Não estou sugerindo, com isto, que devemos tentar dispor de tudo; não é esta a questão. A questão é que, como filhos de Deus, não devemos acumular nada para nós mesmos. Quando guardo alguma coisa comigo, é porque Deus assim falou ao meu coração; se a deixo, é pela mesma razão. Mantenho a mim mesmo dentro da vontade de Deus, e não há porque temer quando Ele me pede para dar qualquer coisa. Nada mantenho comigo por amar aquilo, mas tudo deixo, sem nenhum remorso, quando o chamado vem para deixá-lo para trás. É isso que significa ser desapegado, livre e separado para Deus.
(1) Provavelmente, os exemplos sejam muito típicos da época e do ambiente em que o autor vivia, mas o princípio é, sem dúvida, aplicável aos nossos dias, muito mais do que àquele tempo. Há hoje um grande estímulo para que todos, desde as crianças, aprendam a fazer negócios, poupança, aplicações, investimentos – é este espírito a que Watchman Nee se refere.
(Este texto é o capítulo 7 do livro Não Ameis o Mundo, de Watchman Nee. © Editora dos Clássicos. 2003.)